A MINHA VIDA EM ANGOLA

 

 

Cheio de sonhos e de esperança em conseguir uma vida melhor, aí vou eu no navio “Quanza” a caminho de África. Era um barco misto de passageiros e de carga. O nosso percurso seria: Lisboa-Leixões-Funchal-Ponta Negra (“Point Noir”, que na altura, pertencia a uma Colónia Francesa) e, finalmente, Luanda. Eram meus colegas (mais próximos) de viagem, que viria a durar 15 dias, um casal de músicos – ele guitarrista e ela a fadista, julgo que era a Maria da Conceição. Passaram a viagem, quase toda, a treinar os fados que iriam cantar na “tournée” por toda a Angola; entre esses fados foi a “Mãe Preta” que mais me ficou na memória – outro companheiro de viagem era o Sr.João Stuart, de raça negra, despachante oficial em Lândana (Cabinda) que se dizia descendente da Rainha Ginga de Cabinda, que foi um companheirão!...

 

Ao chegar a Angola, fiquei bastante chocado com o aspecto da maior parte dos negros que encontrámos no porto de Luanda: roupas rotas, alguns descalços... Tudo isso me parecia sinónimo de pobreza e de miséria que me deixava muita pena... Chegaram-me mesmo a vir as lágrimas aos olhos! Mais tarde viria a constatar que não era bem assim; é um erro os europeus (ocidentais) compararem, à primeira vista, os outros povos com a sua maneira de ver as coisas, sem estudarem primeiro a cultura dos outros... Mais tarde, viria a verificar que a maior parte dos povos (tribos) de raça negra eram muito mais solidários entre si do que nós ocidentais; que, de uma maneira geral, o seu código de valores é muito diferente do nosso. No entanto, haverá aspectos melhores e outros piores, tudo dependendo, obviamente, da perspectiva do observador...

 

Após cerca de um mês em Luanda lá vou num avião, bastante pequeno, a caminho do Lobito. A cidade do Lobito era, nessa altura, ainda bastante pequena, com uma zona comercial, feita à esquadria (ruas paralelas e transversais desenhadas geometricamente), os Bairros do Compão, da Caponte e da Restinga, sendo esta última, uma zona muito bonita! De um lado o Oceano Atlântico e do outro a Baía tranquila, com águas quentinhas para os banhos de praia... Num extremo, um obelisco, relativo aos descobrimentos, no outro a Igrejinha de Nossa Senhora da Arrábida (aonde eu viria a baptizar os meus filhos mais velhos); no meio dessa restinga (língua de terra metida pelo mar dentro), a vegetação, predominando as palmeiras, acácias e as casuarinas, bem como as moradias; numa delas, eu e a minha família passámos alguns anos da nossa estada em Angola!

 

Fiquei instalado no Hotel do Turismo. E comecei, imediatamente, a trabalhar. A Corel tinha representações de todo o mundo: brinquedos da Alemanha, relógios da Suíça, plásticos da Inglaterra, óleos do Japão, aviões dos E.U.A., esferográficas de França, etc... Tudo isto no papel (catálogos), claro! De Portugal, tínhamos apenas as balanças e as cadeiras de barbeiro A.P. (António Pessoa), os tabacos da Tabaqueira e pouco mais... Os produtos portugueses estavam disponíveis, apenas em Luanda! Mesmo assim, como as balanças que existiam, na altura na maioria dos estabelecimentos comerciais do Lobito, eram as antigas, ainda com dois pratos (num colocavam-se os pesos e no outro aquilo que se queria pesar), rapidamente comecei a vender balanças automáticas e semi-automáticas por todo o Lobito. Esgotei em dois meses o “stock” de Luanda! Depois comecei a vender, com alguns meses de antecedência do Natal, os brinquedos da Alemanha, etc. Em pouco tempo, ainda sem a filial aberta, o movimento comercial era bastante acentuado... Bem, é que eu queria ganhar “massas” para poder casar com a Maria Teresa que tinha deixado em Lisboa! Entretanto a Corel já tinha aberto outra filial em Nova Lisboa (Huambo). Aberta a filial do Lobito, mandei vir alguns produtos para ter em existências e para os potenciais compradores (importadores) os poderem ver. O negócio ia de vento em popa! Eis quando me apareceu um representante da Corel, dizendo que estava incumbido de inspeccionar as filiais. Já tinha estado em Nova Lisboa, cerca de dois meses, e agora era a vez da filial do Lobito. Até ai tudo bem. Fiz questão de lhe apresentar as contas da filial e tudo o que ele quisesse ver. Em dois dias ficou tudo conferido e de acordo com as regras. De referir que estava acordado e constava do clausulado do chamado “contrato de conta em comparticipação” (em que eu tinha direito a 25% dos lucros), que enquanto o inspector estivesse na filial as despesas corriam por conta desta. O pior é que passados dois meses o inspector ainda estava no Lobito, apresentando regularmente as suas despesas, mas nem sequer me aparecia para visitarmos alguns clientes ou para me ajudar em algo! Perguntei-lhe se ainda iria continuar por mais tempo, ao que ele me respondeu que sim, porque aquela era a única filial aonde havia lucros. E, entretanto, como ele gostava muito de Basquetebol, já andava a treinar uma equipa do Lobito! Ao que eu afinei! Então estava eu ali a trabalhar que nem um mouro, para vir para ali um “parasita” levar-me o produto do meu trabalho? Claro, comecei logo a procurar emprego, até porque aquela actividade comercial de vendedor, ao fim e ao cabo, não era muito do meu agrado...

 

Concorri para o lugar de escriturário numa empresa belga: Agence Maritime Internacionale, S.A.. Após ter feito os exames de admissão, fiquei seleccionado. Assim, depois de resolver o problema da minha saída da Corel, para aonde deslocaram, logo que possível, outro empregado, entrei nessa empresa belga a ganhar 2500$00 por mês! Os belgas geriam os recursos humanos muito simplesmente: os vencimentos iam subindo de acordo com a produtividade e a motivação do funcionário e aqueles que não evoluíam eram dispensados. Como eu fazia por produzir e estava motivado, dentro de pouco tempo já era o responsável pelo embarque de quase todo o cobre que vinha do Katanga (Província Mineira do ex-Congo Belga) e a ganhar o dobro do vencimento inicial!

 

 É interessante recordar que o peso dos lingotes de cobre, tinham um peso ao sair da mina em Lubumbashi (Katanga), outro no Lobito e, finalmente, outro em Anvers (Antuérpia), quando era desembarcado! Tudo isto por efeitos das diversas pressões atmosféricas em altitudes diferentes...

 

No exercício das minhas funções, quando chegavam ou saíam navios do Porto do Lobito eu tinha que ir a bordo com a documentação (Manifestos, B/L’s e outros documentos). Um dia telefonou-me um senhor, que eu conhecia de vista do Lobito, dizendo-me que precisava de falar, confidencialmente, comigo. Combinámos um encontro, num sítio, escolhido por ele, a fim de me poder transmitir o que pretendia... Bem, eu lá fui. O que o “gajo” queria era que eu fosse o elo de ligação, entre alguém do Lobito e tripulantes (dentro do esquema) dos navios belgas, para transportar “droga” (ervas) para a Europa... Eu, segundo ele me disse, ficava rico muito depressa! Claro, mandei-o dar uma volta... Fui ameaçada de morte se o denunciasse, etc. Não comuniquei o facto às autoridades, aliás, se o fizesse ele diria que era mentira, eu não tinha quaisquer provas! É mais um episódio, embora triste, que deixo aqui relatado...

 

Após ter a minha vida profissional estabilizada em Angola, pensei em resolver a minha vida sentimental. Nessa conformidade, eu e a Maria Teresa, tínhamos combinado casar logo que fosse possível. O problema era não ser oportuno, em termos de emprego e de gastos, empreender, naquela data, uma viagem a Portugal para casar! Então, pensámos no recurso do casamento por procuração. E assim foi. No dia 31 de Dezembro de 1955, casámos em Lisboa, mediante uma procuração notarial, o meu sogro – Luís António da Rosa Belo – fez de noivo. Os meus padrinhos foram a minha tia Liberdade e o seu marido. Os convidados limitaram-se aos familiares mais próximos. A Maria Teresa ainda continuou empregada mais algum tempo, deixando a PAA – Pan American (empresa americana de aviação, que nessa altura tinha instalações nos Restauradores, em Lisboa, junto ao Cinema Condes), onde trabalhava. No dia 8 de Maio de 1956, a Maria Teresa chegou, enfim, ao Lobito... Eu já tinha alugado uma casa e a mobilado apenas com o essencial!

 

A Maria Teresa, em Lisboa, estava habituada a ter um grande apoio familiar, além dos pais, tinha dois irmãos – o Diógenes e a Raquel – e, praticamente, em visita ou a viver, permanentemente, em casa dos pais, duas tias, sendo uma delas, a tia Laura, a sua madrinha. Por isso, estranhou muito a falta do apoio familiar. Ali no Lobito éramos só os dois, pelo menos nos primeiros tempos. Efectivamente, passados 10 meses apareceu o primeiro filho! Em 26 de Fevereiro de 1957, nasceu na cidade do Lobito, o Luís Carlos (o primeiro nome de cada um dos avôs); o nascimento foi em nossa casa no Bairro da Restinga, sendo assistido por uma enfermeira/parteira com o curso geral de enfermagem. Eu assisti ao parto, foi o primeiro e o último em que estive presente...

 

Passado pouco tempo foi o baptizado na Igreja Nossa Senhora da Arrábida e o banquete no Hotel Términus – devo aqui recordar que de todos os hotéis e restaurantes que já conheci, praticamente de todo o Mundo, de 5 estrelas e recomendados, não encontrei melhor serviço e comida do que o deste hotel – a mesa estava toda enfeitada com pétalas de rosas! Só de entradas (aperitivos) foram mais de duas dezenas de variedades... Entretanto, já tínhamos um casal de certa idade, que era nosso amigo, cuja senhora dava muito apoio à Maria Teresa: a D. Noémia e o marido Sr. Rocha. Aqui lhes presto as minhas homenagens, porquanto ambos já faleceram. Tinham um filho, o Nuno, que está casado e vive em Algés com a sua mulher a Tina. Como as procurações para representarem os padrinhos na cerimónia do baptizado (os padrinhos foram os irmãos da Maria Teresa – o Diógenes e a Raquel), estavam emitidas no nome desses nossos amigos, passámos a tratá-los por compadres e o Luís Carlos a chamar-lhes padrinhos!

 

A vontade de continuar os meus estudos não esmoreceu. Como no Lobito, naquela altura, não existia qualquer curso médio ou superior, requeri, ao então Secretário Provincial da Educação (equivalente ao ministro da educação de Angola), autorização para fazer os exames, em Luanda, como aluno externo, cidade onde existia, nessa data, um Instituto Comercial. Esse requerimento veio indeferido. Entretanto eu já tinha feito, na Escola Comercial do Lobito a disciplina que me faltava (Tecnologia das mercadorias), estudando eu próprio, com uma boa nota (19 valores); com essa nota, a minha média do Curso Geral do Comércio situou-se a bom nível, dando-me entrada directa, isto é, sem exame de admissão os Instituto Comercial.

 

 

Em 23 de Fevereiro de 1959, nasceu o meu segundo filho, o Pedro Miguel (o nome foi decidido por votação secreta, entre esse proposto pelos padrinhos e Henrique Alberto, apresentado pela M. Teresa, sendo os votantes os padrinhos (primos da M. Teresa) – M. Helena e Dr. Pinto d’Almeida – nós, os pais e uma senhora amiga – Lucília Teixeira - para desempate)!... O filho mais velho, o Luís Carlos com olhos castanhos e moreno; o Pedro Miguel loirinho e de olhos muito azuis. Já no meu caso e no dos meus irmãos, há dois tipos: eu e a minha irmã Liberdade mais morenos, cabelos escuros (os meus eram, porque agora é uma careca luzidia) e olhos castanhos; os meus irmãos Alberto (infelizmente já falecido há um ano) e Rogério são de pele mais clara, cabelos loiros/acastanhados e olhos azuis! Isto é o resultado da mistura dos genes que transmitimos aos nossos descendentes. Veja-se na minha descendência: o meu avô J.J.Araújo (pai do meu pai) e a minha avó Maria de Jesus (mãe da minha mãe) de olhos azuis. Os restantes avós a minha avó Maria Gertrudes (mãe do meu pai) e o meu avô Manuel Petronilho (pai da minha mãe) tipicamentes latinos! Efectivamente, no caso português, do que se conhece da História, temos muitos casos de miscigenação – consequência das diversas invasões, contactos com outros povos, etc. – celtas, gregos, cartagineses, fenícios, romanos, mouros (no sangue português corre, em média, 12% de sangue árabe), godos, visigodos, suevos e outros. Mais, os portugueses, na sua condição de “antropófagos” digeriram cerca de meio milhão de negros, não pela via estomacal; outrossim, pela via uterina. Senão como se explica a não existência dos descendentes dos milhares, muitos milhares, de escravos que vieram de África para Portugal, nos séculos XV a XIX? E, certamente, os negros que estão a vir desde finais do século passado até esta altura, são em tal número que irão contribuir para que o nosso tom de pele escureça, em média, um pouco mais, como quem vai uns diazitos à praia...Aliás, com a “mundialização” isso irá acontecer no resto do Mundo!

 

A vida em Angola, em finais dos anos 50 e década de 60, era uma vida, relativamente, tranquila. A maioria dos “brancos” vivia nas cidades, mas com muitas dificuldades financeiras; comparativamente com outros povos colonizadores, por exemplo, os belgas com quem eu convivia mais de perto, por via do emprego, tinham um nível de vida muito superior ao nosso. Os brancos, os mestiços (havia mulatinhas e cabritinhas tão apetitosas!) e os, então, chamados assimilados (negros com os mesmos hábitos e nível cultural dos “brancos”), a maioria dos quais trabalhadores por conta de outrem, ganhavam apenas o suficiente para fazer face às suas despesas básicas. Praticamente, não conseguiam fazer economias. Era o meu caso. Por isso, não tive possibilidades de vir à Metrópole, como então se dizia, quando nos referíamos a Portugal Continental. Haveria uma minoria de quadros superiores e de comerciantes que, efectivamente, viviam com muito mais desafogo. A grande camada populacional angolana (autócnes) vivia, espalhada por toda Angola, da agricultura e da pastorícia. Muitos desses angolanos procuravam trabalho nas cidades, mas por falta de colocações e de habilitações limitavam-se a ser empregados domésticos (elas lavadeiras e eles “criados” internos) e a outros trabalhos pesados ou indiferenciados! 

 

Um desses “deslocados” do campo (mato) para a cidade, arranjou emprego, como contínuo, na A.M.I. onde eu trabalhava, chamava-se Armindo. Um dia o Armindo chegou ao pé de mim e convidou-me para ser padrinho de um seu filho. O meu filho, Luís Carlos, tinha acabado de nascer e, então, eu e a Maria Teresa fomos falar com o padre Duarte para os baptizar no mesmo dia. E assim foi. A pedido dos pais, pusemo-lhe o nome de Eduardo e ele passou a frequentar a nossa casa até regressarmos a Portugal em 1970; ainda estudou até ao ciclo preparatório, que equivale ao actual 6º ano de escolaridade; e assim passou para o chamado grau de assimilado. Como ele não quis continuar os estudos arranjei-lhe emprego num “stand” de automóveis. Depois de regressarmos ainda trocámos correspondência, mas hoje não sei se ainda é vivo ou não.

 

Após pouco tempo de a Maria Teresa ter chegado ao Lobito, isto é, em 18 de Maio de 1956, recebemos a triste notícia do falecimento do meu pai! Tinha apenas 50 anos de idade... Mais tarde, cerca de 8 anos depois (4-8-64), foi a vez do meu sogro... Também ainda não tinha completado 58 anos! Era terrível nessas alturas a impotência que sentíamos! Por não podermos prestar as últimas homenagens aos nossos entes queridos...

 

O tempo, inexoravelmente, ia passando. A minha vontade de estudar ainda não tinha diminuído apesar das dificuldades do dia-a-dia. Assim, frequentei o curso de preparação para admissão aos Institutos Comerciais aberto na Escola Comercial do Lobito. Limitava-se a 3 disciplinas: Matemática, Físico-Química e Literatura Portuguesa. Obtive média que me permitia dispensar na admissão (sem exame) a qualquer Instituto Comercial português. O pior é que o mais próximo situava-se em Luanda e tinha-me sido, superiormente, negado fazer os respectivos exames como aluno externo. Então pensei se pela via comercial não tinha possibilidades de imediato, porque não tentava a via do liceu? Fui informado que para isso, isto é, para obter a respectiva equivalência teria que fazer os exames de Desenho e de Ciências Naturais, do ex-5º ano dos liceus (actual 9º ano de escolaridade) e depois as cadeiras da alínea que escolhesse do 7º ano dos liceus (correspondente ao actual 12º ano). Então porque não? Deste modo, num ano fiz, como aluno externo do Liceu do Lobito, as duas disciplinas do 5º ano e no ano seguinte estudando em casa, as cadeiras da alínea g) do antigo 7º ano dos liceus: OPAN, Geografia, História e Matemática. Para complementar a alínea ainda me faltavam Inglês (Literatura Inglesa) e Filosofia. Ora, estas eram disciplinas que eu, sem professor, tinha muita dificuldade em concretizar! Só mais tarde, já em Portugal, como aluno externo, as faria no Liceu de Queluz, porquanto deram a possibilidade de trocar o Inglês pela Literatura Portuguesa. O que me viria a permitir obter a seguir a licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, com boa média. Obtida essa meta, prometi a mim próprio que faria todos os possíveis para que os meus filhos não tivessem que percorrer este difícil caminho para concretizar os estudos que pretendessem...

 

Voltando ao Lobito, os então dois filhos iam crescendo, o Luís Carlos era um menino bem constituído; o Pedro Miguel, embora um pouco mais magrinho era bastante saudável. Ainda me lembro dele na sua caminha, com uma armação de madeira a esticar um mosquiteiro de rede de cor branca, a olhar para nós com os seus olhinhos muito azuis, como a pedir colo, mas sem chorar...

 

As saudades dos nossos entes queridos eram muitas! As possibilidades monetárias para ir a Portugal visitá-los eram nulas. A A.M.I. só dava alguns dias de férias anuais (só os belgas é que tinham direito a ir à Bélgica de 30 em 30 meses). Em Angola só o Estado e muito poucas empresas é que proporcionavam férias aos seus funcionários na Metrópole. O C.F.B. – Caminhos de Ferro de Benguela era uma dessas empresas. Então porque não concorrer a um lugar nessa empresa?

 

Se assim pensei, melhor o fiz. Quando tive conhecimento de um concurso para admissão de empregados administrativos no C.F.B., concorri e fui admitido. Todavia, embora tivesse algumas regalias que na A.M.I. não existiam (hospital, armazém de víveres, férias em Portugal, Hotel Términus, com preços especiais, etc.), o ordenado era muito menor e a categoria profissional também! O C.F.B. tinha, na altura, cerca de 13 000 funcionários e uma extensão de linha-férrea de 1348 Kms., atravessando toda Angola, do Lobito até Dilolo (na fronteira de Angola com o ex-Congo Belga). Tinha sido construído, quase exclusivamente, para transportar o minério do Katanga (cobre, manganês, ferro e outros minérios) para exportação, sendo o principal porto de embarque o Lobito.

 

Iniciei a minha carreira, no CFB, por volta de 1960, como empregado de escritório do Serviço Comercial (tráfego ascendente, descendente e estatística). Mais tarde, através de exames, fui transferido para a Divisão dos Recursos Humanos – Secção de Psicologia Aplicada (para fazer exames psicotécnicos aos candidatos a admissões, aos empregados a promover, a reclassificar, etc). Finalmente, até me fixar definitivamente em Lisboa, também através de exames psicológicos, realizados pela I.B.M., a todo o pessoal com as respectivas habilitações, fui admitido para frequentar um curso de Analista/Programador de informática. Entre todo o pessoal, fomos admitidos dez para frequentarem o curso, para 4 vagas e eu fiquei. A informática aplicada às empresas estava praticamente no início em Portugal. Nós consumíamos cerca de um milhão de cartões perfurados por mês! Tínhamos 2 computadores a trabalhar quase permanentemente (1401/IBM com 4K’s)! Era uma ginástica mental, ter de escrever qualquer programa mais complexo, com essa capacidade de memória (4000 bytes)... Programávamos numa linguagem quase máquina para se poder fazer o trabalho. A título de exemplo, para se dar uma instrução para multiplicar: era apenas um “M”; com a geração seguinte de computadores, a 360/IBM, já se programava em Cobol, em que a mesma instrução já era a palavra multiplicar em inglês, claro. A capacidade de memória já era muito maior, já se podiam, fazer programas sem grande preocupação de memória (bytes). Ao nível da informática, o progresso tem sido imenso, desde as válvulas aos circuitos integrados, discos rígidos, etc.

 

Entretanto a família aumentava, em 14 de Março de 1964, nasceu mais um filhote, o “Pipe” – Filipe Alexandre. Era todo “morenaças”, tinha aí uns três/quatro anitos, quando eu chegava a casa à tarde, a primeira coisa que me pedia era: ““um “scudo” para gelado””; ia a correr à casa que vendia gelados, ali perto, então lá vinha, tranquilamente, a chupar no seu gelado e vinha, então, dar-me um beijinho todo molhado e doce!...

 

Com a família a aumentar era necessário arranjar uma casa maior. Assim, pensámos em construir uma moradia num bairro novo – o Bairro da Luz, Rua da Guiné nº 15! Como o dinheiro que tínhamos era insuficiente, chegou apenas para pagar o terreno e a planta (projecto da casa), pedimos algum emprestado às pessoas de família – à minha irmã Liberdade, à tia Beatriz (irmã da mãe da M.Teresa), ao meu sogro (que ainda era vivo nessa altura) e ao meu irmão Rogério (este para pagamento de uma viagem da Maria Teresa, a Portugal, para tratamento da saúde) – logo que nos foi possível pagámos a todos. Foi uma prova de confiança desses nossos familiares que nós não esqueceremos nunca mais... Mais tarde, foram-nos retiradas, sem qualquer indemnização, as duas moradias (aquando das nacionalizações em Angola, após a independência, o que, aliás, foi feito a todas as casas que não eram, na altura, habitadas pelos respectivos proprietários).

 

Para poder fazer alguns acabamentos e construir uma residência para alugar, num terreno junto ao nosso que já tínhamos adquirido, comecei a dar explicações nas horas pós-laborais. Dava explicações dos antigos 3º, 4º e 5º anos do liceu (actuais 7º, 8º e 9º), das disciplinas de Matemática e Físico-Química. Em turmas de dez alunos no máximo, sendo uma delas constituída por bons alunos que queriam aumentar as notas; uma segunda era a turma dos “cábulas”, alguns até bastante inteligentes, mas que sofriam de “preguicite aguda” (os pais arranjavam-lhes explicador para não perderem o ano); finalmente, uma terceira turma era apenas constituída por alunos maiores que queriam fazer o antigo 5º ano (actualmente o 9º ano), como alunos externos. As explicações foram um sucesso; para manter o nível, tive que rejeitar muitos alunos, quando as 3 turmas já estavam preenchidas. Muitos desses explicandos acabaram por se licenciar, sendo hoje médicos, professores, engenheiros, etc. Alguns desses ex-explicandos, de cor morena e negra, exercem ou já exerceram importantes lugares políticos em Angola...

 

Em 1961, com o início do “terrorismo” em Angola, tínhamos na altura apenas os dois filhos mais velhos, a Maria Teresa começou a andar com hemorragias derivadas do seu sistema nervoso, com receio que fizessem aos filhos aquilo que algumas fotografias mostraram que os independistas tinham feito no norte de Angola (UPA), segundo se dizia, com a ajuda dos EUA. Os médicos aconselharam-nos a sua vinda a Portugal. E assim foi. Veio com o Luís Carlos e com o Pedro Miguel. Ainda bem que veio, assim os familiares conheceram os meninos, por sinal o avô Luís António, pai da Maria Teresa, faleceu algum tempo depois. Se não fora isso, não tinha conhecido os netos...

 

Alguns anos depois, em 1964, vim eu a Portugal (após 9 anos de ter embarcado pela 1ª vez!...), vim fazer um estágio de psicologia aplicada na CARRIS, por conta do C.F.B. Foi uma alegria, a minha querida mãezinha, os meus irmãos e outros familiares todos à minha espera... Quando o navio ancorou em Alcântara e eu vinha na passadeira dos passageiros, protegidos por uns separadores, o meu irmão Rogério, que é possante, pegou em mim em peso e retirou-me para junto deles! O rosto de todos modificado com os 9 anos que já tinham passado sem eu os ver, levou alguns momentos para que os neurónios se adaptassem a essa realidade. A minha irmã já tinha casado com o Alfredo Manuel, moravam nas Caldas da Rainha e o Rogério que também casara com a Teresa, residiam na Dagorda (junto a Óbidos, onde o filho, José Carlos, veio a ser vereador -Vice-Presidente- da C.M.Óbidos, seguindo as peugadas do seu bisavô João Joaquim d’ Araújo que exerceu o lugar de vereador em Loures).

 

Ao regressar a Angola, comparando o nível de vida cá e lá, cheguei à conclusão que a diferença já não era muita! Em Portugal tinha havido alguma evolução, até porque muita gente tinha ido para França e Alemanha a “salto”, havendo agora mais hipóteses de emprego... E em Angola, se havia explorados eram, além dos naturais, também a maioria dos portugueses, trabalhadores por conta de outrem, que viviam lá! Os exploradores andavam por outras bandas...Talvez pelo Estoril, Cascais, Londres, N. York, Moscovo, etc. Estou convencido que a maioria dos exploradores eram estrangeiros. Aliás, Portugal logo a seguir aos descobrimentos, esgotou-se de tal modo que perdeu até a independência (1580); durante a colonização foram os estrangeiros que exploraram a maior parte da riqueza – em Angola, o petróleo ia para os E.U.A., os diamantes para a África do Sul, o minério para o Japão, o sisal para a Alemanha, etc. etc. Portugal tinha algum comércio e pouco mais. Saiu de lá de mãos vazias... A maioria dos, indevidamente, chamados retornados vieram sem nada, deixando lá todo o produto do seu labor de muitos anos!

 

Eu, tudo o que lá ganhei, trabalhando muito, muito mesmo, tudo lá ficou investido e, mais tarde, retiraram-me a titularidade de duas moradias que lá possuía e até um pequeno saldo da conta bancária desapareceu! Os anos de maior capacidade de trabalho e produtividade foram os que estive em Angola (dos 24 aos 39 anos de idade). Tudo isso, não me deixou qualquer animosidade ou rancor para com o povo angolano! Ofereci-lhes parte da minha mocidade e de Angola retirei apenas vivências muito ricas... Esse Povo merecerá sempre a minha estima e compreensão, outro tanto não posso afirmar sobre alguns dirigentes. Há, e haverá sempre, ou, pelo menos, durante muito tempo, um sentimento de ligação entre os portugueses e os angolanos, embora por vezes não se queira reconhecer! Angola é um país muito rico, em solo (há terrenos fertilíssimos, que chegam a dar duas searas por ano); em subsolo, também riquíssimo (petróleo, diamantes, cobre, ferro, etc.). De maneira nenhuma se justifica a miséria que existe actualmente, a viver paralelamente com fortunas colossais de algumas pessoas!... Durante os últimos anos em que vivemos no Lobito, no Bairro da Luz, eu e a minha mulher, ainda contribuímos, em Comissões de Festas e outras actividades, para angariar fundos para erguer a igreja do Bairro da Luz. A Maria Teresa chegou a ter uma rubrica no Rádio Clube do Lobito, que se chamava “Conversa com a Avozinha”. Quando se realizavam marchas populares, à semelhança de Lisboa, a Maria Teresa chegou a fazer letras para as respectivas marchas [1].Quando atingimos a data que nos dava direito à licença graciosa a gozar em Portugal, não sabíamos que não voltávamos; mas ainda bem que assim foi, porquanto aquando da independência os portugueses (e não só) passaram um mau bocado. A mim, pelo facto de ter regressado em finais de 1970, definitivamente,  para o meu País, deu-me a oportunidade de tirar o curso superior que sonhara e de exercer funções de grande responsabilidade, que irão ser objecto de notas no capítulo seguinte.

 


 

[1]

MARCHA DO BAIRRO DA LUZ

 

Luz, alegria

Altar brilhante.

Assim um dia

Apareceu vibrante

 

Surgindo entre flores

O Bairro da Luz,

Magia de cores

Que a todos seduz.

 

Virgem tão bela

Será Padroeira

De gente singela

Alegre e fagueira,

 

 

 

Oh! Jovens cantando

Enchei corações

Que até soluçando

Vibram d’ilusões

 

Belo Lobito

Cheio de vaidade,

Todo bonito,

Dançai oh! Mocidade.

 

 

De crista branquinha,

Todo debruado,

E vê-se à tardinha

O sol encarnado.

 

Gente de boa vontade,

Bairro garrido e fulgente,

Que trabalha sem vaidade

Sempre com brio estridente.

 

Luz é vida, Luz é amor!

Rapazes e raparigas

Firmes com todo o ardor

Cantem formosas cantigas!

 

 

 

 

MARCHA DE SAUDAÇÃO

            

                   I  

Cantai rapazes, cantai

Que vai a Luz a passar

É o arco-íris que sai

Para as ruas a brilhar!

                

 

Nosso Bairro lisonjeiro

Feito de luz e de cores,

É por si lindo canteiro

De lindas e frescas flores!

 

                  II

Todo o Lobito s’encante

Com tão bonitas moçoilas!

Neste Bairro verdejante,

Algumas lembram papoilas.

 

E, os rapazes a cantar

Fazem vibrar corações,

Com a alma a crepitar

Com as luzes dos balões.

 

                    III

Dos seus arcos matizados,

Caem pedaços de lua,

Que convidam namorados

A virem cantar p’ra rua.

 

 

O arco-íris garrido

Foi rasgado aos bocados,

Para dar o colorido

Aos seus trajos engrançados!

 

 

 

 

           Refrão

 

Oh! Bairro da Luz

Teu nome traduz

Alegria e amor.

No ar há cantigas

Cantem raparigas

E rapazes, com fervor.

Vem a mocidade

Com muita vaidade

Para as ruas a marchar

É a LUZ que passa!

Cheia de brilho e de graça

Nesta noite de luar.

 

                 Maria Teresa Araújo

                        Lobito, 1965